Sociedades de Crédito Direto originam operações 100% digitais e utilizam fundos estruturados para escalar carteiras além da capacidade do próprio capital
O crédito digital brasileiro se apoia cada vez mais em uma combinação específica de estruturas regulatórias: de um lado, as Sociedades de Crédito Direto, fintechs autorizadas pelo Banco Central desde 2018 a conceder empréstimos e financiamentos utilizando exclusivamente recursos próprios, operando de forma inteiramente digital; de outro, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, que compram parte das carteiras originadas por essas fintechs, permitindo que a operação escale muito além do que o capital próprio da SCD conseguiria sustentar sozinho. Essa combinação se consolidou como um dos principais motores de crescimento do crédito digital no país, tema que a ID CTVM acompanha de perto na administração fiduciária de fundos que compram carteiras originadas por fintechs de crédito.
Fintech origina, fundo estrutura e financia em escala
Na prática, a SCD assume o papel de originadora: capta o cliente, analisa o crédito, formaliza contratos e registra garantias, enquanto o FIDC assume o papel de financiador da operação, adquirindo os direitos creditórios gerados pela fintech e distribuindo o risco entre diferentes cotistas. Essa divisão de funções permite que fintechs de crédito cresçam rapidamente sem precisar captar capital próprio na mesma proporção do volume de crédito concedido, já que o funding da operação passa a vir majoritariamente do fundo, e não do balanço da própria SCD.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, essa combinação entre SCD e FIDC redesenhou a forma como o crédito digital escala no Brasil.
“A fintech traz a tecnologia de originação e a experiência do cliente, o fundo traz o capital e a estrutura de governança necessária para operar em escala. É uma divisão de trabalho que faz sentido para os dois lados”, explica o executivo.
Governança do fundo precisa compensar a juventude da fintech
Como muitas SCDs são instituições relativamente jovens, sem o histórico de crédito acumulado por bancos tradicionais, a estrutura de governança do FIDC que financia sua carteira precisa compensar essa falta de histórico com mecanismos adicionais de controle, como auditoria de lastro mais frequente, limites de concentração por originador e cláusulas contratuais que alinhem os incentivos entre a fintech originadora e os cotistas do fundo, reduzindo o risco de deterioração da qualidade de crédito ao longo do tempo.
A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria de fundos estruturados, funções que incluem o monitoramento de carteiras originadas por fintechs de crédito parceiras. A companhia opera ecossistema de portais integrados por APIs, o que facilita a integração tecnológica com sistemas de originação de fintechs parceiras, reduzindo fricção no fluxo de informações entre originador e administrador fiduciário.
A companhia foi autorizada pelo Banco Central do Brasil a operar como a primeira corretora do país com conta de pagamentos integrada nativamente à própria infraestrutura, o que permite liquidar operações originadas por fintechs parceiras sem depender de intermediários bancários externos em cada uma das transações processadas.
Modelo deve se espalhar para novos nichos de crédito
Para Balassiano, a combinação entre fintech originadora e FIDC financiador deve se espalhar para novos nichos de crédito nos próximos anos.
“Cada vez mais fintechs especializadas em nichos específicos, como crédito para profissionais liberais, pequenos produtores rurais ou microempreendedores, vão adotar esse modelo. A tecnologia de originação está cada vez mais acessível, o gargalo passa a ser o acesso a funding estruturado”, acrescenta o diretor da ID CTVM.
Segmentos como crédito consignado privado, financiamento estudantil e crédito para pequenos negócios têm sido especialmente favorecidos por esse modelo, já que fintechs especializadas conseguem construir jornadas digitais mais eficientes de originação do que instituições financeiras tradicionais, ao mesmo tempo em que dependem da estrutura de um FIDC bem administrado para acessar capital em volume compatível com a demanda de crédito desses nichos.
Parceria deve continuar sustentando o crédito digital
A expectativa entre especialistas é que a combinação entre Sociedades de Crédito Direto e FIDCs continue sustentando parte relevante do crescimento do crédito digital brasileiro nos próximos anos. Para administradores fiduciários, a capacidade de monitorar de perto a qualidade das carteiras originadas por fintechs parceiras, com mecanismos de controle proporcionais ao estágio de maturidade de cada originador, deve seguir como fator determinante para sustentar a confiança de investidores institucionais nesse tipo de estrutura. Fintechs que conseguem demonstrar histórico consistente de originação de qualidade tendem a acessar, ao longo do tempo, condições de funding progressivamente mais competitivas junto aos fundos que financiam sua carteira.



